A dona-de-casa ia colocando mais tempero na comida, quando às 11h30 o telefone toca. Ela limpa rapidamente as mãos na própria roupa e atende o sem fio que estava em cima da geladeira.
- Alô, dona Isadora Fonseca?
- Sim. Pois não?
- Vou ser breve e direto – a voz do outro lado da linha era grave e imponente -. Estou com sua filha em minha posse e pretendo matá-la, caso a senhora não coopere comigo.
Nesse exato momento, a claridade que entrava pela janela pareceu sucumbir às trevas, aos olhos de dona Isadora.
- Como assim? – com a fala trêmula, responde – Calma. Que brincadeira é essa? Pelo amor de Deus!
- Sequestramos a sua filha. O nome dela não é Ana? Não tem os cabelos cacheados e um belo corpo? Ah, também uma linda tatuagem no maravilhoso ombro moreno. O que mais a senhora deseja saber? Estou com ela e gostaria que a senhora transferisse 10 mil reais para a minha conta.
Enquanto dona Isadora, atônita, ouvia o suposto sequestrador passando o número da conta, ela raciocinava aflita. Nem bem escutara os primeiros números e desligou. Tomada por uma perversa confusão, quase que sem pensar, vasculhou a agenda para achar o número do celular da filha. Isadora era uma senhora culta. Lia muito, inclusive jornais-diários. Só podia ser um golpe, pensava ela, tentando se acalmar, enquanto digitava o número. Porém, o pavor voltou à tona quando, no telefone, ouviu: “Este número está desligado ou fora da área de cobertura.”
O mundo desabava naquele instante para dona Isadora. Desesperada, ela bambaleava as pernas e se segurava onde podia, para não cair. O telefone tocou novamente. Era o mesmo homem, e ela sabia que se tratava de uma pessoa má.
- A senhora acha que eu estou brincando? Não tenho tempo e a sua Aninha também não.
A tortura psicológica não durou mais que um minuto e dona Isadora já tinha transferido os 10 mil reais para a conta do criminoso.
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