Tentativa de pré-ensaio sobre a emoção das cenas cinematográficas

8 fev

Existem filmes que são capazes de mudar a vida de uma pessoa.Não é mero exagero. Alguns possuem o sentimento tão exacerbado que conseguem captar a beleza de uma passagem e transformá-la em filosofia. E é exatamente isso que muitos cineastas querem transmitir aos receptores da mensagem. Independente que certo filme possua toneladas de efeitos especiais, cenas hiperbólicas, trilha sonora que cause frêmito ou atuações barbarias, o diretor quer, acima de tudo, emocionar a cerne, arrepiar os pêlos púbicos, revirar o cerebelo, tirar comiseração dos ouvidos.

No entanto, muitas pessoas se entregam ao simples. Um plano detalhe de uma película pode ser mais eficaz do que a demasia lacrimosa da mocinha da comédia romântica ou dos gestos do galã do momento. Essas pequenas sinfonias de formosura acabam marcando mais, algo sempre encontrado nas simbologias do cinema iraniano (que é muito chato) ou nos diálogos intermináveis dos mandamentos franceses (tudo culpa da nouvelle vague).

Não existe um caráter definido, um exemplo-mestre para esse caso, já que há pessoas que se emocionam em filmes tão díspares como “Quatro Amigas e Um Jeans Viajante”, “Hanna Montana”, “A Saga Crepúsculo: Lua Nova” ou “Star Trek”. Cada qual e a sua idiossincrasia formam leituras para perceber e se identificar com determinada cena. Mas algumas sequências se prevalecem e se tornam quase instinto coletivo da sétima arte e sempre estão nas listinhas prediletas dos cinéfilos.

Exemplos não faltam, como o personagem Ferris, de “Curtindo Uma Vida Adoidado”, cantando e dançando em uma passeada o sucesso beatlemaníaco “Twist and Shout”; o golpe da águia do Daniel em “Karatê Kid”; a cara de espanto do Luke Skywalker quando descobre que Darth Vader é o seu pai; Jack Nicholson e a sua machadinha infernal em “O Iluminado”; o alienígena saindo do peito de Kane em “Alien – O Oitavo Passageiro”; Carrie encharcada de sangue de porco dilacerando os alunos de uma formatura em “Carrie, A Estranha”; Linda Blair se masturbando com um crucifixo em “O Exorcista”; Charlton Heston percebendo, ao final de “Planeta dos Macacos” quando vê a estátua da Liberdade soterrada, que está na Terra do futuro; a morte de Janet Leigh na cena do banheiro de “Psicose”; Charlie Chaplin brincando com o mundo em “O Grande Ditador”; Gene Kelly se divertindo em “Cantando na Chuva”; Julie Andrews ensinando as crianças a cantar em “Noviça Rebelde”; Sylvester Stallone treinando em “Rocky – O Lutador”; o casal se beijando à beira do mar em “A Um Passo do Paraíso”; o final de “O Sexto Sentido” quando todos descobrem que o Bruce Wills está morto; quando a saia da Marilyn Monroe levanta em “O Pecado Mora ao Lado”. Enfim, são tantos arquétipos que não caberiam nesta página.

O bacana de tudo isso é que os exemplos citados foram registrados de maneira simples, sem as maquiagens grandiosas dos efeitos. Apenas boas sacadas de enquadramentos e, lógico, um roteiro com ideias originais, resultaram nas cenas mais fascinantes do cinema. Em tempos de “Avatar”, a sétima arte continua proporcionando momentos marcantes, mas o romantismo parece meio evaporado. Quem consegue defender isso ainda são os desenhos da Pixar, que tem no prelúdio de “Up – Altas Aventuras”, a beleza narrativa de uma história apaixonante. Mas, e o resto? O revolucionário cinema 3D conseguirá despertar o sentimentalismo, ou apenas colocará o telespectador dentro de um videogame? Não era bem isso que os irmãos Lumière tinham em mente. Ou não? A resposta está em James Cameron: o rei do mundo…

Leonardo Handa – Jornalista – www.leonardohanda.blogspot.com

One Response to “Tentativa de pré-ensaio sobre a emoção das cenas cinematográficas”

  1. Rodrigo Mello Campos 20. fev, 2010 at 9:40 #
    pois é leo… acho que bons roteiros não morrem, indiferente dos efeitos especiais… Star Wars pode ser uma prova.

    abraço

Leave a Reply

UA-663485-17